Antes de começar, cabem aqui algumas explicações necessárias para eu não me estender demais na história: basicamente, este é uma estória tirada de uma campanha de RPG, na minha versão do mundo de fantasia medieval Tormenta (clique aqui e aqui para saber mais). Se quiser saber mais sobre Danna, uma das personagens deste conto, leia o prelúdio dela clicando aqui. Boa leitura!
No topo da torre frontal de observação, os poucos vigias do decadente feudo Aerathis notaram que a lua já estava, mais uma vez, quase cheia. A chuva martelava furiosa e incessantemente seus elmos, e o som dos trovões já se confundia com o ronco das suas barrigas vazias. Eles nem tentavam mais parecer confiantes quando sua senhora passava, porque mesmo dentre eles, que ficaram ao lado de lady Danna, a jovem filha bastarda do senhor, mesmo dentre eles, já pairava a dúvida se aquilo tudo valia a pena.
A guerra era parte do cotidiano do povo de Allania, ainda que o reino não estivesse tão perto dos grandes conflitos nos últimos anos. Era um reino de homens livres, que pelas Leis do Rei escolhiam os nobres aos quais deveriam seguir, mas na prática acabavam confinados às terras onde nasciam. Era uma nação com oportunidades para soldados da glória, mercenários da guerra e heróis dos vilarejos, porque as ameaças nunca sumiam – monstros saídos das montanhas e florestas mais densas, hordas de bárbaros vindos do norte, piratas, soldados sem pátria nas fronteiras, entre outros. Mas a esmagadora maioria dos homens que levantavam uma espada, o faziam para defender a sua terra.
Ainda assim, a cada dia naquele cerco miserável, eles vacilavam. O destacamento de oficiais da coroa estavam ali para capturar a bastarda que perdera o pai e não queria entregar as terras que acreditava serem suas, e ela lutava, e suava e sangrava junto com eles. Mas ela tinha o espírito indômito, a bravura incansável, a jovialidade revolta. Eles estavam apenas velhos e cansados.
Da muralha era pouco possível ver as dezenas de tendas dos atacantes, obscurecida com a fumaça dos braseiros que as aqueciam de dentro graças ao aguaceiro. Perto dali, dois viajantes tentavam, sem sucesso, fazer fogo. Suas roupas encharcadas e largas eram envoltas em capas escuras, e eles usavam chapéus de palha com uma camada de palha fofa e pesada com a água envolvendo a cabeça. Um era jovem e forte, olhos puxados vivazes e ouvidos atentos aos ruídos próximos que a chuva porventura não abafasse; o outro era uma elfa.
- Dessa vez vamos ter que nos juntar aos gaijin – disse o homem, desistindo da fogueira.
- Sem problemas.
O recruta Parn estava farto de fazer vigília noturna nesse cerco estúpido e inútil, ainda mais nessa tempestade. Achava que os homens deviam entrar logo lá e tirar a bastarda teimosa dos seus lençois limpos à força, para que o exército fosse empregado em demandas que valessem a pena, mortes mais honrosas que uma febre do esgoto e uma cova rasa. Para ele, futuras aventuras com glórias e riqueza, mas este era um péssimo começo. Ele nem se importou muito quando alguém jogou um trapo branco e vermelho ao seus pés, mas pegou a coisa mesmo assim. Leu “viemos em paz” escrito em tinta no pano, quase sendo lavado pela chuva, e rapidamente fitou a floresta. Dois vultos observavam – seu primeiro instinto foi chamar os outros soldados e declarar ataque, mas decidiu ao invés perguntar quem eram aqueles.
***
O estranho tamuran chamado Reiko e sua protegida Elora partilhavam o fogo dos soldados alanianos, mas somente isso – víveres eram racionados. A elfa dedilhava suavemente sua cítara para passar o tempo, mas acabou se condolecendo dos soldados feridos e se ofereceu para usar as palavras de cura de sua deusa nos ferimentos. Tinha receio daqueles homens, que eram perigosos em qualquer ocasião, mas se o fato de ser uma sacerdotisa não lhes aquietasse as vontades, a presença intimidadora e estoica do guerreiro reforçava o argumento.
- Qual é o seu destino? – indagou o oficial Fahn, mexendo em uma sopa rala de ervilhas. Era um homem alto e de barba vultosa.
- Norte.
- Onde, no norte?
- Só norte.
- Aedris?
- Isso não lhe diz respeito.
- Como é?
- Floresta de Radelathen – emendou Elora, sabendo no que aquilo ia dar. – Ouvimos falar que há elfos por lá.
- Ah, entendo… – sorriu o homem, ainda olhando feio para Reiko. – há todo tipo de fadas lá, mesmo. E fantasmas. É uma floresta de loucos, onde só loucos e moribundos entram.
Diante disto, alguns homens na tenda fizeram sinais religiosos, outros cuspiram, outros saíram para a chuva, praguejando. Um cachorro lambeu a mão de um enfermo ali perto. Elora só ensaiou um sorriso educado com a ignorância daqueles homens simplórios.
- Bem, ouçam vocês dois – disse Fahn, levantando. – Pela manhã o barão Kelderic decidirá o que faremos com vocês. Provavelmente serão liberados para seguir seu caminho sem problemas, mas este protocolo é necessário para separarmos simples viajantes de espiões.
- De qualquer modo, vocês seriam muito, mas muito úteis aqui. Você, guerreiro, parece ser bom com essa enorme e estranha espada, pelo que ouvi falar dos tamuran. E você, bela senhora, tem os dons dos deuses, de modo que não preciso falar mais nada. Pensem nisso e tenham uma boa noite – E saiu.
Reiko se limitou a olhar feio para a entrada da tenda e aproveitar a trégua da chuva para sair.
***
Elora esperou um pouco, vestiu sua capa escura e se dirigiu à tenda do oficial, sem chamar atenção de ninguém. O encontrou com uma caneca de cerveja na mão, já sem a pesada armadura de malha nos ombros.
- Se perdeu no caminho, madre?
Fahn era mais esbelto que sua barba e modos sugeriam, com o peitoral e costas marcados com as típicas cicatrizes de um veterano. Os cabelos pendiam soltos nos ombros meio desgrenhados, e a elfa notou que ele não era muito bonito.
- O senhor já mandou um emissário ao barão? – Elora se encostou de leve numa bancada e abraçou a si mesma, com frio.
- Não, farei isto quando o galo cantar, amanhã. Posso saber o motivo da pergunta?
- Nós não vamos sair daqui, vamos?
- Sinceramente? – o rosto do oficial era um esgar. – Como eu disse, o exército vai querer vocês.
- Há algo que eu possa fazer para que deixemos este lugar pela manhã sem muito alarde? – sussurrou, pensando no tipo de idiotice que Reiko faria ao saber dos planos do exército para eles.
Fahn bebeu um gole de cerveja.
- Sempre há.
***
Reiko podia suportar todo tipo de privações e percalços, mas não se sentia muito à vontade perto da sujeira e indisciplina dos gaijin. Preferiu a brisa fria e solitária da noite chuvosa por alguns minutos, e o som tranquilizador da floresta. Elora deveria estar com ele, mas ela merecia um catre menos deplorável depois de tanto chão duro e salteadores de estradas.
Pôs-se a pensar em sua terra natal. Nos preceitos de seus ancestrais dracônicos, e como isso pouco adiantou quando a tempestade vermelha veio. Em como os dragões surgiram e simplesmente levaram os clãs para longe de sua terra natal ao invés de ficar e defender seus descendentes. Na sua adolescência em Khalifor, a sensação de estranheza com que todos ao redor olhavam aqueles refugiados e mesmo assim seu pai Ido continuara lhe treinando como se nada tivesse mudado. Na missão em Questor, onde ele havia tombado em suas mãos através do machado goblinóide, e em como havia jurado ao pai moribundo de uma elfa no mesmo vilarejo que ia protegê-la e encontrar sua mãe.
Foi quando ouviu o leve chapiscar da lama, escondeu-se atrás de uma árvore e aguardou. Em uma fração de segundo, sua katana estava tilintando com o aço de uma espada bastarda. Seu pai o havia ensinado a começar e terminar qualquer combate rapidamente, mas ele logo percebeu que aquele guerreiro não era inferior nem superior a ele – e a luta não deveria acontecer. Guardou a espada e ergueu as mãos em sinal de paz. Desconfiado, seu oponente continuou com a lâmina em riste, bufando e suando, mostrando os caninos levemente pontudos. Ele percebeu, pelos gemidos de cansaço, que se tratava de uma mulher.
Percebeu, pelo tabardo rasgado, que era a jovem senhora daquele castelo sitiado.
- Você pode me deixar passar, ou podemos lutar, porque eu não vou me render – seu olhar brilhava com tanta ferocidade quanto a pedra rubra em um pingente que tinha no pescoço e a outra engastada na empunhadura da espada.
- Deve haver um bom motivo para abandonar seus homens.
- Pode ter certeza. Eles estão se rendendo, de qualquer modo, e os cães do rei só querem a mim. Dá pra sair da frente?
Reiko simplesmente deu um passo ao lado e fez uma mesura. A moça saiu correndo, a velha camisa de malha chacoalhando. Mais à frente, ouviu um relinchar e som de galope, enquanto a chuva voltava a cair.
Pensou em como a vida é engraçada e voltou para a tenda. Viu Elora dormindo em um canto, armou sua esteira ao lado e deitou, olhando para o fogo e sentindo algo de estranhamente familiar naquela mulher. Talvez um dia, se eles se encontrassem novamente, descobriria o quê.
I s2 esse texto. :3 Contextualizar o comecinho com a situação do reino ficou bem melhor mesmo. :)