Outro dia de trabalho

Passou a mão na testa, pondo a franja para trás na esperança de que finalmente saísse de seus olhos, enquanto o restante dos cabelos compridos grudavam na nuca molhada de suor. As mãos tremiam levemente, fazendo o cano da arma oscilar. Podia ouvir o som da respiração assustada da médica logo mais à frente, imaginando que estivesse encolhida em um canto de parede. À sua esquerda, podia identificar claramente os passos exaustos de Jeff, como sempre de peito aberto indo de encontro ao perigo e se achando um Super-Homem. “Deus, esse babaca vai terminar se matando”, pensou. O ar ficou um pouco mais frio, arrepiando os pêlos de seu braço. Prendeu a respiração por um momento, sentiu a firmeza do armário de metal contra suas costas e em um movimento rápido se levantou.

- Eu cubro você! Pegue a dra. Mishima. – gritou antes de disparar dois tiros com balas preenchidas de sal na direção do homem enorme que estava parado no meio da sala ao lusco-fusco da lâmpada que falhava.

Errou o primeiro, o segundo pegou de raspão. Detestava atirar – nunca tivera boa mira, armas de fogo eram algo que não a agradavam nem um pouco. Mas pelo menos deu certo: o zelador do hospital, que fora possuído por um espírito de luxúria e sanguinolência apenas olhando para uma moeda asteca, largou a pobre médica e tal qual um trator avançou outra vez na direção de Jeff, com as mãos em riste para estrangulá-lo. Desesperada, May buscou os olhos de Nick na luz incerta. Ele estava prestes a mais uma vez deixar os insitintos tomarem conta, como tinha feito em tantas outras ocasiões, e fazer uma loucura para salvar o irmão. Ela fez um gesto simples: “deixa comigo” e apontou para a arma dele. Após tantos meses juntos, Nick e May haviam conseguido desenvolver uma linguagem não-verbal eficiente para uma situação dessas. Queria dizer: “eu estou aqui ao seu lado e não vou sair”, só isso tudo. Em um momento como esse, um gesto tão simples fazia toda a diferença.

Com cuidado para não fazer barulho, ela se aproximava por trás enquanto Nick disparava um tiro de sal após o outro. Jeff conseguiu se arrastar para longe do alcance das mãos do homem possuído, que voltou a cabeça para a fonte dos tiros incômodos e curvou os cantos da boca em um sorriso malicioso. Fez um gesto com uma das mãos e Nick foi arremessado contra a parede batendo com estrondo, seguido pelo o barulho metálico da sua arma caindo. Era a distração que ela esperava.

Arremeteu para cima do homem com poderoso chute na altura de suas costelas. A massa de músculos virou-se para ela, os olhos injetados de ódio e crueldade. Exalava um cheiro de pólvora, pêlos e roupas chamuscados pelos tiros de sal à queima-roupa disparados um pouco antes por Jeff. As mãos, que eram enormes, cerraram para desferir um soco na face da garota.  A dor explodiu em seu olho esquerdo. Ela recuou um pouco, porque precisava de espaço para manobrar. Jogou todo seu peso em cima da perna esquerda pronta para desferir um golpe com a direita. O adversário preparou-se para defender o golpe em uma fração de segundo, dobrando sua coluna e protegendo a barriga com as mãos. Com um sorriso – ele estava onde ela queria -, May mudou o alvo e golpeou com as mãos juntas com toda a força na nuca desprotegida do homem, atordoando-o momentaneamente. Aproveitando a vantagem, a garota deu um passo na direção do flanco do opositor e posicionou os braços para um mata-leão. Ele resistiu, e deu-lhe uma cotovelada nas costelas, mas mesmo assim ela não afroxou seu abraço asfixiante.

- Ajudem aqui! Rápido!

Os rapazes vieram em seu auxílio. Com o trabalho em equipe finalmente desacordaram o pobre zelador, com sua resitência literalmente sobrenatural. May protegeu a mão com o tecido da camisa de Nick e revistou os bolsos do macacão do desacordado homem e logo tateou a moeda. Rapidamente Nick pegou a embalagem plástica cheia de sal e a abriu para a moeda ser depositada ainda embrulhada em sua camisa. Mesmo com o objeto ensacado os dois caçadores ainda tiveram a precaução de olhar para o lado oposto, para não serem também enfeitiçados. Agora era só trancar o artefato encrenqueiro em uma caixa de pandora (as caixas protegidas com feitiços onde os caçadores guardavam coisas perigosas) e tudo, pelo menos por hora, estaria resolvido.

Saldo final: a médica ferida superficialmente, Jeff muito ferido precisando urgente de tratamento médico, May com uma costela fraturada e Nick com uma tonelada de remorso sobre seus ombros.

- Nós somos terríveis. – disse May um pouco mais tarde enquanto estava deitada na cama do hospital e Jeff estava na UTI. – Se não fosse por nós a doutora não teria se machucado. Fomos negligentes com você, Nick, e seis pessoas morreram. Simplesmente porque fomos estúpidos demais para notar que a maldita moeda tinha te pego. A gente não serve para esse trabalho. Supostamente deveríamos ajudar as pessoas e por onde a gente passa só deixa corpos, feridos e famílias arrasadas.

- Ora, May. Não dá pra salvar todo mundo. O trabalho é difícil, e só podemos tentar fazer a coisa certa, por cima das dificuldades, das dores e dos corpos deixados atrás de nós. O negócio é não desistir – tranquilizou Nick.

- E por que devemos continuar? Quem disse que isso vale a pena? Não temos grana, família, não podemos ter uma vida. Tudo o que temos é isso: remorso, culpa, fugas de hospitais e corações partidos. Nem mesmo nos agradecem.

- E você conseguiria simplesmente desistir sabendo que mais pessoas vão se machucar e morrer? As vidas de muitos serão fodidas como as nossas simplesmente porque ninguém estava lá para entrar num túmulo escuro ou caçar algo sedento de sangue?

Ela parou por um longo minuto, suspirou, e finalmente falou:

- Não. Eu TENHO que fazer alguma coisa a respeito.

- Então, querida, bem-vinda ao deserto do real. – disse, depositando um suave beijo em sua testa. E saiu do quarto, deixando-a com seus pensamentos.

A sino-americana sorriu e apoiou a cabeça no travesseiro, afinal ele estava certo. Eram três verdadeiros heróis fudidos, sem qualquer alento ou reconhecimento. Sentiam remorso por não poder salvar todos, mas mesmo assim insistiam em tentar até o último suspiro. E ainda diziam que a kriptonita do Super-Homem doía.

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Este conto faz parte da iniciativa Liga Narrativa. O tema do mês de Maio é Heróis. Eu aproveitei para escrever sobre nossa campanha de WoD de caçadores, que vocês podem ter mais informações nesse blog Potestade.

Agora, eis os links dos contos dos outros colaboradores:

Juca – http://jucasblog.wordpress.com/2010/05/19/l-n-mai-heroi-o-cara/

Allana – http://brainsstorm.wordpress.com/2010/05/07/sobre-fantasmas-e-herois/

Erick – http://rpgdm.erickpatrick.com/liga-narrativa-e-se/

Ítalo – http://rascunhosdeumamente.blogspot.com/2010/05/justa-vinganca.html

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Sobre Elisa

Ser de humor instável e desfuncional que vive no mundo da imaginação cercada de seres míticos. Completamente apaixonada por histórias acompanha todos os veículos com intensidade - cinema, livros, contos, hqs e tudo o mais que surgir. Preguiçosa que só, não consegue manter um blog funcionando sozinha - decidiu se aliar a seu companheiro de pipoca e canetas (Daniel Ramos) para tentar manter uma certa frequência na escrita. Qualquer lógica será mal vista e todas as formas de expressões são bem-vindas.

10 thoughts on “Outro dia de trabalho

  1. Pingback: Liga Narrativa – Maio

  2. Nice! Ficou massa o conto. O primeiro parágrafo, em especial, prende a atenção pra gente ler o resto. E pra quem é fã de Hunter/Supernatural (como eu), todo resto vem como bônus. =]

    Fiquei com vontade de conhecer a lenda por trás da moeda (“What are the legends about it, Sam?”). Tem no blog da campanha mais sobre isso?

    PS: Parece que o pessoal da Liga focou mesmo em mostrar como é ingrata essa vida de herói.

  3. “Como assim, malvado? Eu não entendi.”

    Malvado por isso que o Ítalo diz ai em cima, em seguida: por pensar o lado doído, ingrato do heroísmo em mundos “realistas”. Não sei se existem outros lados. E claro que não estou dizendo que malvado é ruim. Só que a ideia da culpa, somada com o resto, é forte e é triste.

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  6. Pingback: Liga Narrativa (Mai – Heroi): O Cara « Juca's Blog – Inquietação em sua mente!

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