De verde para cinza

Faz muito tempo que não dou as caras por aqui ou em qualquer outro espaço de escrita e pensamento publicado virtualmente a.k.a blog. Nem por aqui, muito menos no Paragons e nem se fala sobre o Potestade. Toda minha letargia mental foi posta de lado, infelizmente por um motivo terrível. Um assassinato, ou melhor, um latrocínio.

Todos (ou quase) da minha cidade, a amada e verde João Pessoa, estão cientes da bárbarie cometida por homens sem escrúpulos ou noção do correto. Eles nasceram, cresceram, tiveram família, ou não, foram amados, ou não, como tantas outras pessoas na mesma cidade, quem sabe até no mesmo bairro ou rua, mas diferenciaram-se dos demais homens ao optarem por sequestrar um jovem de 31 anos, com o objetivo de levar e vender seu carro, sabe-se lá a razão de optarem pelo caminho do crime. O que começou como um assalto, foi desenrolado como sequestro e terminou com uma bala quente entrando na carne da vítima e consigo rasgando a vida. O rapaz, meu vizinho de rua, morreu sozinho, no escuro, com medo, e seu corpo foi encontrado jazendo no chão de terra de um descampado próximo a uma localidade pobre, onde abundam dificuldades e faltam recursos.

De quem é a culpa por tal crime? Da desigualdade social? Da falta de educação? Da própria vítima por ter se descuidado um momento? Do Diabo que tentou os perpetradores do assassínio? Não sei. Nem me cabe descobrir. O secretário de segurança pública deve falar. A polícia deve ser xingada ou acusada. O prefeito vai prometer mudanças. O governo vai criar programas de proteção. Mas nada disso vai fazer qualquer diferença, para aquele que abandonou a vida na terra, ou para sua família e amigos, nem para os criminosos que serão punidos. Promessas e atitudes a partir de uma tragédia não a mudam, uma vez uma ação perpetratada ela pertence a esfera do eterno, do passado, do desencadeador, jamais será parte das consequências.

Todos os dias milhares de pessoas morrem são vítimas de violência urbana, espancadas por quem deveria protegê-las, metralhadas em guerras civis ou conflitos armados. Têm seu fim silencioso e doloroso, morrendo pouco a pouco, à mingua sem comida ou água. Então por que um assassinato de um desconhecido, apenas um, provoca tanta revolta e dor? A insegurança com seus dedos gelados apertam meu coração e a cada sombra espreita um sobressalto. Os especialistas em psicologia, sociologia e quaisquer outros catedráticos dirão teorias difíceis sobre empatia, projeção e outra inúmeras. Mas a verdade é: pela dor de ver o que um dia foi cresce em meu peito. Saber que um dia foi possível ver crianças brincando na rua, que ir e voltar de casa era um fato e não uma hipótese. Ver os pequenos pedaços do que a vida já foi começarem a esvanescer no vento, soprados como a chama de uma vela que agora morre, causa melancolia e saudade.

Sinto muito pela perda da família do rapaz, sinto muito pela perda do bom amigo que um dia ele fora. Mas sinto mais ainda por mim e por você, por todos nós vermos a cidade que amamos de pacata pouco a pouco cair no cinismo e no absurdo sem rosto que as grandes cidades têm. A violência fria se aproxima mais de nós e pouco a pouco, todos nós deixaremo-nos anestesiar pela névoa do conformismo duro e do pragmatismo de chumbo que engessa nossas almas e endurece nossos sonhos.

A Legião das Almas Perdidas

Uma lenda do oeste*

Do CCCLII Códice Eterno da Tradição e Conhecimento, Datado de 1352.

Reza a lenda que em Lannestul, durante o reinado de Malagant, houve um tempo de perturbações horrendas.

Como todo rei, Malagant O Amargo tinha inimizades sangrentas e nenhuma paz. Naqueles dias a fronteira entre Lannestul e Drael, um pequeno reino nos Picos dos Dragões que já não existe mais nos dias de hoje, estava em perpétua disputa. A então rainha dos draeses era Cherize A Astuta, uma notória bruxa de grande poder que adorava mandar suas tropas contra seus vizinhos. Cherize desprezava especialmente seu grande rival graças à sua filha, lady Ereshka, conhecida como A Dama Graciosa, que havia viajado à corte de Malagant e caído em suas graças.

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Good times

Este conto funciona melhor se você estiver ouvindo System Of A Down – B.Y.O.B. Obrigado.

WOOOOOSH!

O som dos planadores rasando por cima dos homens era quase ensurdecedor, mas Shin-ra não tava nem aí, deixava o harmonizador dos fones desligados e o rock rolando alto enquanto se divertia. Era o melhor no que fazia, e nada atrapalhava sua concentração.

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Party

O som cadenciado da bateria ribombava em seus ouvidos. O suor grudava os cabelos curtos em sua nuca, podia sentir o leve amargo da cerveja em sua língua e a queimação da vodca barata em sua garganta – flaming asshole. A boca seca, a sensação do couro falso da minissaia apertando as coxas, o carinho íntimo da pele áspera sintética contra a maciez de sua pele viva. O corpo balançava ao ritmo das guitarras e das notas altas emitidas pelo vocalista. Um rapaz de cabelos roxos brilhantes esbarrou de leve, sem querer, em seu cotovelo. Os olhos dela voltaram-se para ele ao sentir as milhares de faíscas dançarem quentes sobre seus poros, a sensação do calor percorrendo o braço, passeando pelas costas, dançando em círculos quentes até se desfazer em prazer entre suas pernas.

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Pequenas sombras da guerra

Antes de começar, cabem aqui algumas explicações necessárias para eu não me estender demais na história: basicamente, este é uma estória tirada de uma campanha de RPG, na minha versão do mundo de fantasia medieval Tormenta (clique aqui e aqui para saber mais). Se quiser saber mais sobre Danna, uma das personagens deste conto, leia o prelúdio dela clicando aqui. Boa leitura!

No topo da torre frontal de observação, os poucos vigias do decadente feudo Aerathis notaram que a lua já estava, mais uma vez, quase cheia. A chuva martelava furiosa e incessantemente seus elmos, e o som dos trovões já se confundia com o ronco das suas barrigas vazias. Eles nem tentavam mais parecer confiantes quando sua senhora passava, porque mesmo dentre eles, que ficaram ao lado de lady Danna, a jovem filha bastarda do senhor, mesmo dentre eles, já pairava a dúvida se aquilo tudo valia a pena.

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Love the way you die

O carro atingiu um monte de latas de lixo e os gatos pularam, amedrontados. Janice freou tão bruscamente que a calota saiu quicando pela rua. Desceu do carro e fechou a porta com um estrondo, praguejando enquanto atravessava o jardim. Barnes veio correndo com alegria, mas a expressão da mulher era tão fechada que ele hesitou a meio caminho. A porta da frente estava entreaberta, mas Janice fez questão de chutá-la para alertar que havia chegado em casa. Barnes preferiu se encolher no canto da sala e observar sua dona gritar pelo marido pelos cômodos do andar de baixo.

Encontrou Eddie estava na cozinha, sentado à mesa com uma cerveja na mão. Estava tão esfarrapado e ferido quanto Janice, com a camiseta branca ensanguentada e rasgada, e a calça jeans imunda. Janice tinha a jaqueta arruinada, deixando aparecer as tatuagens dos braços, mais visíveis que as do marido a esta altura. Ele a fitou com o semblante cansado, sem saber se a lágrima que teimava em rolar no rosto da esposa traduzia a fúria lívida do seu rosto ou a decepção escondida por trás dele.

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In vitro

Ela conheceu o mundo de forma simétrica. Ao nascer, era branco. Sua mãe tinha dedos de metal que lhe puseram com delicadeza em um ninho de lençóis perfumados. A primeira dor, do perfurar de orelhas, e muitas dores seguintes, vinha acalentada por Don´t Worry Be Happy. O mundo começou a desabrochar cedo, com vislumbres de todos os lugares, limitados apenas aos vértices. Gastronomia, programas de auditório, internet. Tantas pessoas diferentes, tantos momentos divertidos, um universo inteiro para se observar. Todos os dias sua mãe metálica trazia suas refeições através de uma pequena abertura em uma das janelas da sua vida, e quando era preciso remediar as doenças, luzes muito ofuscantes lhe distraíam enquanto os remédios não chegavam. Ao seu próprio jeito, ela participava de tudo, olhando, dançando e se divertindo com as pessoas e coisas ao seu redor.

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