A Legião das Almas Perdidas

Uma lenda do oeste*

Do CCCLII Códice Eterno da Tradição e Conhecimento, Datado de 1352.

Reza a lenda que em Lannestul, durante o reinado de Malagant, houve um tempo de perturbações horrendas.

Como todo rei, Malagant O Amargo tinha inimizades sangrentas e nenhuma paz. Naqueles dias a fronteira entre Lannestul e Drael, um pequeno reino nos Picos dos Dragões que já não existe mais nos dias de hoje, estava em perpétua disputa. A então rainha dos draeses era Cherize A Astuta, uma notória bruxa de grande poder que adorava mandar suas tropas contra seus vizinhos. Cherize desprezava especialmente seu grande rival graças à sua filha, lady Ereshka, conhecida como A Dama Graciosa, que havia viajado à corte de Malagant e caído em suas graças.

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Good times

Este conto funciona melhor se você estiver ouvindo System Of A Down – B.Y.O.B. Obrigado.

WOOOOOSH!

O som dos planadores rasando por cima dos homens era quase ensurdecedor, mas Shin-ra não tava nem aí, deixava o harmonizador dos fones desligados e o rock rolando alto enquanto se divertia. Era o melhor no que fazia, e nada atrapalhava sua concentração.

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Party

O som cadenciado da bateria ribombava em seus ouvidos. O suor grudava os cabelos curtos em sua nuca, podia sentir o leve amargo da cerveja em sua língua e a queimação da vodca barata em sua garganta – flaming asshole. A boca seca, a sensação do couro falso da minissaia apertando as coxas, o carinho íntimo da pele áspera sintética contra a maciez de sua pele viva. O corpo balançava ao ritmo das guitarras e das notas altas emitidas pelo vocalista. Um rapaz de cabelos roxos brilhantes esbarrou de leve, sem querer, em seu cotovelo. Os olhos dela voltaram-se para ele ao sentir as milhares de faíscas dançarem quentes sobre seus poros, a sensação do calor percorrendo o braço, passeando pelas costas, dançando em círculos quentes até se desfazer em prazer entre suas pernas.

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Pequenas sombras da guerra

Antes de começar, cabem aqui algumas explicações necessárias para eu não me estender demais na história: basicamente, este é uma estória tirada de uma campanha de RPG, na minha versão do mundo de fantasia medieval Tormenta (clique aqui e aqui para saber mais). Se quiser saber mais sobre Danna, uma das personagens deste conto, leia o prelúdio dela clicando aqui. Boa leitura!

No topo da torre frontal de observação, os poucos vigias do decadente feudo Aerathis notaram que a lua já estava, mais uma vez, quase cheia. A chuva martelava furiosa e incessantemente seus elmos, e o som dos trovões já se confundia com o ronco das suas barrigas vazias. Eles nem tentavam mais parecer confiantes quando sua senhora passava, porque mesmo dentre eles, que ficaram ao lado de lady Danna, a jovem filha bastarda do senhor, mesmo dentre eles, já pairava a dúvida se aquilo tudo valia a pena.

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Love the way you die

O carro atingiu um monte de latas de lixo e os gatos pularam, amedrontados. Janice freou tão bruscamente que a calota saiu quicando pela rua. Desceu do carro e fechou a porta com um estrondo, praguejando enquanto atravessava o jardim. Barnes veio correndo com alegria, mas a expressão da mulher era tão fechada que ele hesitou a meio caminho. A porta da frente estava entreaberta, mas Janice fez questão de chutá-la para alertar que havia chegado em casa. Barnes preferiu se encolher no canto da sala e observar sua dona gritar pelo marido pelos cômodos do andar de baixo.

Encontrou Eddie estava na cozinha, sentado à mesa com uma cerveja na mão. Estava tão esfarrapado e ferido quanto Janice, com a camiseta branca ensanguentada e rasgada, e a calça jeans imunda. Janice tinha a jaqueta arruinada, deixando aparecer as tatuagens dos braços, mais visíveis que as do marido a esta altura. Ele a fitou com o semblante cansado, sem saber se a lágrima que teimava em rolar no rosto da esposa traduzia a fúria lívida do seu rosto ou a decepção escondida por trás dele.

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In vitro

Ela conheceu o mundo de forma simétrica. Ao nascer, era branco. Sua mãe tinha dedos de metal que lhe puseram com delicadeza em um ninho de lençóis perfumados. A primeira dor, do perfurar de orelhas, e muitas dores seguintes, vinha acalentada por Don´t Worry Be Happy. O mundo começou a desabrochar cedo, com vislumbres de todos os lugares, limitados apenas aos vértices. Gastronomia, programas de auditório, internet. Tantas pessoas diferentes, tantos momentos divertidos, um universo inteiro para se observar. Todos os dias sua mãe metálica trazia suas refeições através de uma pequena abertura em uma das janelas da sua vida, e quando era preciso remediar as doenças, luzes muito ofuscantes lhe distraíam enquanto os remédios não chegavam. Ao seu próprio jeito, ela participava de tudo, olhando, dançando e se divertindo com as pessoas e coisas ao seu redor.

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Reflexos

Ele não conseguia dormir. Estava em um leito confortável em um aposento bem aquecido do maior castelo sob suas posses, na maior das cidades que havia conquistado, com uma garota bonita e anônima repousando por perto e taças do melhor vinho possível ao seu dispor. Mesmo assim, o sono não vinha. Nunca vinha, naqueles meses em que marchara pelo decadente reino de Bielefeld. Naquele tempo todo viajando sete léguas, desafiando cavaleiros, senhores e clérigos que não passavam de garbosos ostentadores de lanças e escudos que já viram dias melhores.

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Outro dia de trabalho

Passou a mão na testa, pondo a franja para trás na esperança de que finalmente saísse de seus olhos, enquanto o restante dos cabelos compridos grudavam na nuca molhada de suor. As mãos tremiam levemente, fazendo o cano da arma oscilar. Podia ouvir o som da respiração assustada da médica logo mais à frente, imaginando que estivesse encolhida em um canto de parede. À sua esquerda, podia identificar claramente os passos exaustos de Jeff, como sempre de peito aberto indo de encontro ao perigo e se achando um Super-Homem. “Deus, esse babaca vai terminar se matando”, pensou. O ar ficou um pouco mais frio, arrepiando os pêlos de seu braço. Prendeu a respiração por um momento, sentiu a firmeza do armário de metal contra suas costas e em um movimento rápido se levantou.

- Eu cubro você! Pegue a dra. Mishima. – gritou antes de disparar dois tiros com balas preenchidas de sal na direção do homem enorme que estava parado no meio da sala ao lusco-fusco da lâmpada que falhava.

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Extinção eminente

Estava sentada diante do espelho, mais uma vez, todas as noites era o mesmo ritual. Soltou um suspiro de chateação, olhou as unhas novamente. Aquela máquina estúpida havia usado o matiz errado mais uma vez e tentar consertar agora só mancharia ainda mais o verniz. Soltou uma imprecação e começou a abrir as gavetas e portinholas, pôs vários pequenos estojos sobre a mesa, um ao lado do outro. Abriu o primeiro fez uma careta e deixou de lado. Abriu o segundo, suspirou e começou a retirar com cuidado o gel que repousava no recipiente. Equilibrou com cuidado em cima do dedo indicador e esfregou no olho esquerdo. O tom acastanhado da íris absorveu rapidamente o gel translúcido e se tornou levemente amarelado. Piscou. Pegou outro estojo e dessa vez pegou uma pequena lente de contato, tão minúscula que facilmente se perderia se ela se distraísse. Abriu bem o olho direito e posicionou o objeto. O olho começou a lacrimejar ferozmente, pegou um spray e borrifou no olho aberto. Agora ambos os olhos tinham o mesmo tom castanho amarelado.

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A última refeição do rei

Estava sentado em um canto da cozinha as costas doíam apoiadas contra o frio aço inoxidável da porta da despensa. Pelo menos a perna não doía mais tanto assim, se fechasse os olhos ainda podia sentir os dentes fortes e a mandíbula poderosa cerrando-se em sua panturilha macia. Quando era criança foi, certa vez, mordido por um buldogue, anos mais tarde viu um documentário informando que o impacto da mordida de um cão dessa raça era de aproximadamente 500 kg de força, ainda lembrava com clareza da força dessa mordida. Mas agora, comparando o cão da vizinha com o moleque insano que o mordera chegava a conclusão de que o pirralho era muito mais forte que o cachorro. Como, em que universo, um menino de mais ou menos 5 anos tem mais força nas articulação da mandíbula que um buldogue com seu maxilar de cadeado?

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